
My Pride and Joy, de indrasensi, no Flickr, CC
Ontem recebi do @berlitz o seguinte e-mail:
| Por que certas canções, como jingles, ficam ‘grudadas’ em nossas mentes?
É fato que tanto as circunstâncias de natureza emocional quanto as que acontecem em um ambiente carregado de emoção são mais bem lembradas do que aquelas que são adquiridas em um contexto emocionalmente irrelevante. Algumas músicas, em especial as canções pop, os jingles e as trilhas sonoras, além de terem um timbre particular e facilmente reconhecível, bem como uma estrutura musical simples, curta e fácil de lembrar – geralmente apoiada em refrão – têm, ainda, uma linha melódica que não só acompanha, mas muitas vezes caracteriza a tensão emocional do momento vivido, fazendo com que a música passe a ser parte integral e indissolúvel da lembrança. Isso fica claro quando assistimos a um filme sem trilha sonora, pois a ausência de sons compromete a absorção emocional do conteúdo transmitido. De fato, estudos demonstraram que algumas canções populares são capazes de ativar partes do cérebro relacionadas às sensações de recompensa e satisfação, como a área tegmental ventral e o núcleo accumbens. Essas regiões são responsáveis pela liberação da dopamina, o neurotransmissor que media essas sensações. Martín Cammarota |
Entenderam?
Basicamente é o que todo mundo sabe que acontece, só que com um pequeno embasamento científico por trás.
Agora vamos pensar.
Ou melhor, vamos juntar os fatos deste post AQUI com estas infos aqui de cima…
Nós lembramos de uma letra de uma canção dos Beatles que ouvíamos quando éramos criança, mas não lembramos o que almoçamos ontem, certo ?
A cor da cueca/calcinha que você está usando hoje, sem olhar. Lembrou???
E assim vamos…
Agora, qual a associação que a música faz na nossa cabeça no momento em que a escutamos?
É necessário ter algum fator emocional externo para que lembremos de alguma música por tanto tempo?
Será que existe alguma estatística provando o que está aí no email? Tipo “músicas feitas em Dm-Am-C-G vendem mais (ou são mais sucesso) do que músicas em Bb7-Gm-Asus etc, etc, etc ?
Vamos pensar num exemplo. Los Hermanos – Anna Julia.
Fora toda a promoção da gravadora em cima da música, ela foi sucesso porque é boa. Ponto final.
A letra é legal, o ritmo é bacana, e os acordes são “fáceis”.
Cheguei no ponto. Fácil é a palavra.
Porquê é “fácil” ? Porque são acordes que ouvimos nessa mesma sequência há muito tempo ? Ou a facilidade com que eles se encaixam na sequência faz com que o cérebro os torne mais “palatáveis” do que algo mais cabeludo???
Boa pergunta. Segundo o email estas músicas ativam partes do cérebro relacionadas às sensações de recompensa e satisfação…
Pode ser isso então. O cérebro entende aquilo como algo já conhecido, então volta pra sua zona de conforto (satisfação de conhecer e recompensa de não ter que pensar. hehehe). Como ele já entendeu, não tem que criar mais conexões para entender novamente…
Anna Júlia se parece com várias músicas anos 50/60, por isso que aceitamos melhor uma música assim do que um Miles Davis, por exemplo… até hoje.
Não tô aqui defendendo que todo mundo deve fazer música copiada de algo anterior, de jeito nenhum. Tô só atestando que isso é fato.
Aí surge a conclusão “óbvia”. Se eu fizer uma música com cara de antiga, ou que use todos os elementos “do antigamente” farei sucesso e dominarei o mundo, certo?
Errado.
Do mesmo jeito, acredito, que nosso cérebro vai para uma zona de conforto quando entende a música, acho que uma música realmente boa e de sucesso deve ter algum elemento que a diferencie do resto. Senão o cérebro, em sua zona de conforto, pensa “ah, mas isso eu já ouvi, não tenho mais interesse nisso não…”
Então, a Fórmula do Sucesso caiu por terra…
O que temos que pensar ao tentar criar um hit é justamente pegar algo já concebido, formatado e pronto, porém adicionar elementos inovadores, diferentes, interessantes. Seja uma boa letra, uma sonoridade diferente, algum instrumento ou ritmo diferenciado, sei lá.
Se fosse tão fácil assim, não tinha tanta gente tentando uma aceitação pública com sua música. Era só pegar uma fórmula pronta e gravar…
Felizmente não é o caso. Ia ser MUITO chato ouvir 2000 versões similares de Anna Julia ou de rocks dos anos 50/60 toda vez que você ligasse o rádio ou comprasse uma música.
É o que acontece atualmente com o infame Hip-Hop. Hoje em dia é o seguinte formato:
-Começa a música com uma batida e gente falando
-Entra o rapper
-A cantora que vai mandar o vocal do refrão começa meio que a interagir com o rapper
-A cantora vai pro refrão
-Volta o rapper
-Volta a cantora
-Termina em fade ou em alguma risada….
E assim ficamos. Quantos hip-hops são assim atualmente? 98% deles tenho certeza, prá contar por baixo…
Isso é muito chato. Viram que deu certo uma época, agora repetem o padrão até ninguém mais aguentar. E, na minha opinião, tá demorando muito prá cansarem deste estilo.
Tudo de bom,
Billy.
Foto: Indrasensi no Flickr

power of music, de riccardoce em CC no Flickr
(texto publicado no Programa ADD, do Maestro Billy, em 22 de dezembro de 2008)
Nem sei como começar aqui, mas deu vontade de escrever sobre o assunto. O mais dificil não é escrever sobre o assunto, mas sim não virar um grande #chavão. Deixa eu contar algumas coisas pra ver se eu chego onde quero.
Quando eu tinha meus pequenos 18 ou 19 anos, não lembro especificamente, o Silvio Calmon, que era um dos donos do estúdio em que eu trabalhava na parte da noite (de tarde eu atendia telefone e traduzia a Billboard na Band FM e fazia faculdade de manhã), me perguntou se eu queria ser DJ. Topei na hora, óbvio.
Aí ele resolveu em ensinar. Isso era uma Quarta-feira. Aprendi meio que mais ou menos os rudimentos da profissão. A parte técnica teoricamente é fácil, se vc tem um mínimo de conhecimento de música, de tempo, de velocidade, de ritmo.
E então chegou a parte de conhecer as músicas….
O Silvio me perguntou se conhecia músicas anos 70. Na época, eu só ouvia Joy Division e, por aproximação, odiava qualquer coisa que fosse mainstream. Música anos 70 era um dos ódios que eu tinha.
Chic ? Weather Girls ? Sylvester ? Village People ? Lógico que não, né ? Prá quem cortava o cabelo moicano com gilete e ouvia Joy Division, New Order, Alien Sex Fiend, Depeche, Front, e coisas afins, é lógico que anos 70 eu fazia toda a questão de odiar e nem conhecer…
Respondi pra ele que não conhecia absolutamente nada. E realmente não conhecia. Tipo, por nome de banda, nome de música. Se eu ouvisse Le Freak do Chic, eu conheceria a música, mas não saberia quem tava tocando e qual o nome da dia cuja…
Aí ele me disse uma coisa que ficou marcada na minha cabeça e que tento falar a todos que curtem música (99,99% da população mundial):
-Você tem que conhecer todo e qualquer tipo de música, até pra poder falar mal. Não adianta falar que não gosta de alguma coisa se você não sabe do que tá falando.
É isso aí. Na hora, 18/19 anos, pensei que ele tava de sacanagem comigo. O tempo me fez perceber que ele tava e está certo. Leia o texto completo »