
power of music, de riccardoce em CC no Flickr
(texto publicado no Programa ADD, do Maestro Billy, em 22 de dezembro de 2008)
Nem sei como começar aqui, mas deu vontade de escrever sobre o assunto. O mais dificil não é escrever sobre o assunto, mas sim não virar um grande #chavão. Deixa eu contar algumas coisas pra ver se eu chego onde quero.
Quando eu tinha meus pequenos 18 ou 19 anos, não lembro especificamente, o Silvio Calmon, que era um dos donos do estúdio em que eu trabalhava na parte da noite (de tarde eu atendia telefone e traduzia a Billboard na Band FM e fazia faculdade de manhã), me perguntou se eu queria ser DJ. Topei na hora, óbvio.
Aí ele resolveu em ensinar. Isso era uma Quarta-feira. Aprendi meio que mais ou menos os rudimentos da profissão. A parte técnica teoricamente é fácil, se vc tem um mínimo de conhecimento de música, de tempo, de velocidade, de ritmo.
E então chegou a parte de conhecer as músicas….
O Silvio me perguntou se conhecia músicas anos 70. Na época, eu só ouvia Joy Division e, por aproximação, odiava qualquer coisa que fosse mainstream. Música anos 70 era um dos ódios que eu tinha.
Chic ? Weather Girls ? Sylvester ? Village People ? Lógico que não, né ? Prá quem cortava o cabelo moicano com gilete e ouvia Joy Division, New Order, Alien Sex Fiend, Depeche, Front, e coisas afins, é lógico que anos 70 eu fazia toda a questão de odiar e nem conhecer…
Respondi pra ele que não conhecia absolutamente nada. E realmente não conhecia. Tipo, por nome de banda, nome de música. Se eu ouvisse Le Freak do Chic, eu conheceria a música, mas não saberia quem tava tocando e qual o nome da dia cuja…
Aí ele me disse uma coisa que ficou marcada na minha cabeça e que tento falar a todos que curtem música (99,99% da população mundial):
-Você tem que conhecer todo e qualquer tipo de música, até pra poder falar mal. Não adianta falar que não gosta de alguma coisa se você não sabe do que tá falando.
É isso aí. Na hora, 18/19 anos, pensei que ele tava de sacanagem comigo. O tempo me fez perceber que ele tava e está certo.
Com este argumento, ele começou a me mostrar músicas anos 70. Chic, Village People, Weather Girls, Donna Summer, Gloria Gaynor, etc, etc, etc. Na verdade Disco, mais pro fim dos 70 começo dos 80.
É óbvio que conhecia as músicas, mas não sabia nome nem endereço nem CEP de nenhuma delas.
Aprendi algumas básicas na própria quarta-feira.
Na Sexta, ele me falou que eu iria abrir uma festa pra ele. Tipo tocar das 8 da noite até umas 9, sem necessidade de mixar nada no tempo, só não deixar a música parar…
Falei que tudo bem, que iria, tocaria qualquer coisa do que ele tivesse separado, e esperaria ele chegar lá pelas 9 da noite, pra assumir as pick-ups.
Sabem que horas ele chegou ? 2 da manhã.
Agora o que aconteceu entre as 8 da noite e 2 da manhã ???
Comecei a tocar as músicas que estavam no case que eu conhecia. Prince, Gloria Gaynor (que eu tinha reconhecido na Quarta-feira) e algumas outras.
Só que era festa de gente beeeeeem mais velha. Eu tinha 18 e a festa era prá gente de 50.
Uma luz divina aproximou um cara mega-mamado que conhecia música para perto do equipamento.
E ele começou a dar um playlist prá mim.
-Oi, tudo bem (copo de whisky na mão) ? Cê tem aí Chatanoogaa Choo-choo?
(eu sem fazer a menor idéia do que ele tava falando)
-Ah, lógico que tenho. Quem canta mesmo ?
-Não, a música não é cantada, é aquele puta instrumental tesão do Glenn Miller.
(vi que tinha um vinyl do Glenn Miller no case e disse)
-Ah, tá. Tava confundindo com outra (ele tava mamado, lembrem-se disso)!!!!
-Toca aí então.
Aí o mamadão berrava pro dono da festa:
-Essa aqui é prá você !!!
E lá ia eu com a Chatanoogaa Choo-choo…
E assim o cara pegou amor em me passar músicas que os amigos dele gostavam e que eu não fazia a menor idéia que existiam.
-Tem aí In The Mood ?
-Tenho
-Manda bala !!!
E eu ia na do cara.
O cara tomando whisky, eu tocando o que ele mandava, e aprendendo o que gente de 50 anos gostava.
Quando o Silvio chegou as 2 da manhã, eu não pulei no pescoço dele. Muito pelo contrário.
O Silvio perguntou:
-Tudo bem aí ?
Eu falei
-Tudo em ordem. O que você quer ouvir agora ? Glenn Miller ? Little Richards ? É só pedir que eu tô dominando…
Fora que o mamadão ainda fez uma boa propaganda minha pro meu chefe… hehehe.
Assim aprendi que a gente tem que conhecer música pra pelo menos ter alguma idéia do que as pessoas tão falando.
Hoje em dia é fácil. Qualquer Googlada vc acha o que tá procurando. Na época era mais complicado.
Bom, resumindo. Depois desse dia, comecei a conhecer TODO TIPO DE MÚSICA.
Desde música clássica, que ouvia quando era criança mas não saiba o quê era o quê, até os mais novos sucessos do mundo.
Até pra poder falar mal.
Onde eu quero chegar ? No Sam Cooke.
Quem é Sam Cooke ? Este aqui
E também “The man who invented Soul”, segundo um box à venda na Amazon.
Isso é pouco perto do que ele fez…O cara teve o poder de fazer uma música que está na minha cabeça já tem pelo menos 2 semanas.
Incessantemente…
Mas como cheguei no Sam Cooke ? Justamente ouvindo tudo que posso/consigo. Sem a menor distinção, sem nenhum preconceito.
Ouçam por favor a música, depois vem a explicação (ou não).
Sim, é um blues tocado por uma orquestra. Basicamente.
Mas e a emoção que o cara coloca no que canta ? Isso conta ponto prá cacete.
E a letra ? Só prestei atenção depois de amar esta música. Nunca presto muita atenção na letra, só ouço o todo. Se realmente for uma puta música, aí sim vou ver o que a letra tá dizendo.
E nesse caso é bem pertinente. Fala sobre preconceito, sobre vida humilde mas não humilhado. E que um dia tudo isso vai mudar. A mudança chegará. Foi uma das músicas mais lembranda quando da eleição do Obama.
E tudo com uma puta emoção.
Aí é que aparece o poder da musica.
Poder este que junta pessoas completamente diferentes e desconhecidas só porque gostam de determinada banda ou estilo.
Que traz lembranças de infância, de adolescência, de tempos bons e ruins.
Lembranças específicas de uma situação única, de uma só pessoa. De momentos legais, de gente bacana, de gente chata, de tudo. Mas toda música é associada a alguma coisa ou momento ou pessoa. Sempre.
Todo mundo, imagino, tem alguma música na vida que significa muito. Ou aquela em que você se percebe como gente, ou uma que te deu um estalo para uma tomada de atitude, ou simplesmente uma música a que você recorre em momentos que precisa colocar a cabeça no lugar. Algumas são eternas nas nossas vidas, outras mudam conforme nosso humor e idade.
Já tive este problema que tenho com Sam Cooke com algumas músicas como:
-Alan Parson’s Project – Old and Wise
-Stevie Wonder – Ribbon in the sky e Lately
-Joy Division – Atmosphere
-New Order – Sub-culture
-Depeche Mode – Dream on
-Richard Wagner – Funeral de Siegfried
-Vivaldi – Verão (das 4 estações)
-Beatles – Norwegian Wood
-George Harrison – My Sweet Lord
-Paco de Lucia – Entre dos águas
E muitas outras. Vejam que não são só músicas lentas, de acordes menores etc e tal. São músicas comuns, que se encaixaram perfeitamente em determinada época da minha vida, e guardam lembranças bacanas (ou não) dos momentos em que não saíam da minha cachola.
Nem pela letra (Lately, por exemplo), mas pelo todo, pela proximidade do som de cada uma delas com o momento.
Acho que música é até pior que cheiro. Sabe quando um perfume lembra alguém ou algum lugar ? Música é pior. Ou melhor, sei lá.
E só são 7 notas que se juntam das mais variadas formas, com as mais variadas sonoridades.
Por isso volto ao preâmbulo deste post lá em cima, e faço minhas as palavras do Silvio Calmon.
-Você tem que conhecer todo e qualquer tipo de música, até pra poder falar mal. Não adianta falar que não gosta de alguma coisa se você não sabe do que tá falando.
Não sei se me fiz entender, mas ouçam a música aqui do post novamente. De repente ela mesmo, em 3 minutos e 15 segundos, se encarrega de explicar tudo que levei um monte de tempo prá escrever…
Tudo de bom,
Billy.
Adorei o artigo e me arrisco a ir mais longe com relação ao poder da música… ela também cura, de verdade, conheço casos reais… a música nos trás sensações e emoções inexplicáveis nos leva de volta ao passado e tem o poder de nos transportar para o futuro… sem música o que seria desse mundo?